Como buscar até +70% de ganho em títulos IPCA longos

Quando se fala em renda fixa, a frase do momento é:

“Com juros altos, é bom deixar o dinheiro parado em títulos conservadores.”

Só que tem um detalhe que quase ninguém está explorando:
os juros futuros – aqueles que o mercado usa para precificar os títulos de longo prazo – hoje embutem, em alguns vértices reais longos, algo em torno de 13,5% ao ano.

Isso não é a Selic atual e nem “juro real contratado oficial”; é a taxa de juros futuros que o mercado está usando hoje para precificar um título IPCA muito longo.

E é justamente aí que aparece uma janela rara de oportunidade em títulos públicos atrelados ao IPCA com vencimento distante, como um Tesouro IPCA+ 2050 (NTN‑B longa).

Neste artigo, vamos mostrar em linguagem simples:

  • por que esses títulos podem ter um potencial de valorização espetacular,
  • quais são os números que calculamos,
  • como o Relatório Focus do Banco Central sustenta essa tese,
  • e para que tipo de investidor essa estratégia faz sentido.

Focus mostra expectativa de inflação comportada e queda de juros

O Relatório Focus de 23 de janeiro de 2026, divulgado pelo Banco Central, reúne as expectativas de mercado para inflação, juros, câmbio etc.

Alguns números importantes (mediana das projeções):

  • Inflação (IPCA – variação anual):
    • 2026: 4,00%
    • 2027: 3,80%
    • 2028: 3,50%
    • 2029: 3,50%
  • Selic (taxa básica – fim de ano):
    • 2026: 12,25%
    • 2027: 10,50%
    • 2028: 10,00%
    • 2029: 9,50%

Em português bem direto:

O mercado projeta inflação perto da meta e queda gradual da Selic ao longo dos próximos anos.

Ao mesmo tempo, na curva de juros futuros, as taxas usadas hoje para precificar títulos IPCA de prazo muito longo ainda estão em um patamar elevado – no nosso exemplo, estamos usando um vértice real de aproximadamente 13,5% ao ano como referência de juros futuros de longo prazo.

Ou seja:

  • O mercado futuro está precificando hoje juros bem altos para prazos longos,
  • enquanto o próprio Focus sugere um cenário de normalização de inflação e juros no horizonte.

Esse descompasso é exatamente o que cria a oportunidade.

 

Onde entra o título IPCA longo

Os títulos públicos atrelados ao IPCA com vencimento muito distante (como um Tesouro IPCA+ 2050, da família das NTN‑B) têm duas características essenciais:

  1. Proteção contra a inflação
  • Pagam IPCA + uma taxa real definida no momento da compra.
  • Isso preserva e aumenta o poder de compra no longo prazo.
  1. Forte sensibilidade à queda dos juros futuros
  • Quando a taxa de juros futuros usada pelo mercado para precificar esses títulos cai,
  • o preço de mercado (PU) desses papéis sobe bastante.
  • Quanto mais longo o vencimento, maior essa sensibilidade.

Ao comprar hoje um título IPCA longo, o investidor está, na prática, travando a taxa dos juros futuros que o mercado está oferecendo nesse prazo.
Se, no futuro, o mercado passar a exigir juros menores para esse mesmo prazo, o título comprado antes tende a valorizar no preço.

 

Nosso cálculo: de juros futuros de 13,5% para juros futuros de 11%

Vamos ilustrar com um exemplo numérico simples, em cima de um título IPCA com vencimento em 2050.

Premissas

  • Prazo aproximado até o vencimento: 24 anos (considerando 2026 como ano de hoje).
  • Taxa de juros futuros hoje: adotamos 13,5% ao ano como referência de precificação para esse ponto longo da curva.
  • Preço do título hoje (PU), dado esse nível de juros futuros: R$ 4.397,67.

Agora, imagine um cenário em que, ao longo do tempo, o mercado revisa sua visão e passa a precificar esse mesmo título com:

  • Taxa de juros futuros em 11% ao ano, em vez de 13,5%.

Ou seja, o mercado passa a exigir menos retorno para aquele prazo, porque o ambiente de inflação e juros já está mais normalizado.

O resultado da mudança de juros futuros

Refazendo o valor presente desse título com base nessa nova taxa de juros futuros de 11%, chegamos a:

  • PU hoje (juros futuros de 13,5%): R$ 4.397,67
  • PU depois (juros futuros de 11%): cerca de R$ 7.550,00

Aproximadamente:

  • Ganho em reais: ~R$ 3.150,00 por título
  • Ganho percentual: em torno de +72%

Esse aproximadamente +72% é o efeito puro da:

queda da taxa de juros futuros de 13,5% para 11% na marcação a mercado do título.

Ainda não estamos somando:

  • a correção pela inflação (IPCA) ao longo do tempo;
  • nem os juros reais contratados que o título paga até o vencimento.

 

Como isso conversa com o Focus

O Focus está nos dizendo:

  • IPCA caminhando para algo entre 3,5% e 4,0% ao ano,
  • Selic convergindo, ao longo dos próximos anos, para 9,5%.

Em um ambiente assim:

  • Inflação controlada,
  • Juros básicos menores,

Não é razoável imaginar, por muitos anos, juros futuros tão altos quanto os 13,5% que o mercado hoje embute em certos prazos longos.

A tendência natural, se o cenário do Focus se confirmar, é:

  • os juros futuros de longo prazo irem sendo ajustados para baixo,
  • reduzindo a taxa que o mercado exige para esses títulos IPCA longos.

E, quando isso acontece, os títulos que você comprou lá atrás – com juros futuros de 13,5% travados – se tornam mais valiosos.
Resultado: o preço (PU) sobe, gerando ganho de marcação a mercado.

Em resumo:

A taxa de 13,5% e os 11% que usamos não são “juros reais fixos do Tesouro”, e sim taxas de juros futuros que o mercado está usando para precificar o título hoje e em um cenário à frente.
Se essas taxas de juros futuros caírem, o preço do título tende a subir – e é daí que vem o potencial de valorização.

O gráfico de sensibilidade: a “alavanca” do prazo longo

O gráfico de “Análise de Sensibilidade Tesouro Renda+” ajuda a visualizar essa lógica:

  • No eixo horizontal, temos a taxa de juros real (juros futuros reais).
  • No eixo vertical, a variação do preço do título em porcentagem.
  • Cada linha representa um vencimento diferente.

 

As linhas dos títulos com vencimento mais longo (como 2050/2055) são bem mais inclinadas. Isso significa:

  • Pequenas quedas na taxa de juros futuros de longo prazo
  • Grandes altas no preço (PU) desses títulos.

Nos cenários mostrados no gráfico, alguns prazos longos chegam a apresentar valorizações acima de 100% quando os juros futuros caem de patamares muito altos para níveis mais normais.

Nosso número de cerca de +72%, saindo de juros futuros de 13,5% para juros futuros de 11%, está totalmente alinhado com esse comportamento.

 

Para quem essa oportunidade faz sentido

Aqui é onde entra a adequação ao perfil do investidor.

Para quem é

Essa estratégia faz sentido para quem:

  • Entende que haverá volatilidade no meio do caminho
    • O preço desses títulos vai oscilar conforme as expectativas de juros futuros mudarem.
  • Pode deixar o dinheiro investido por pelo menos 1 ano, idealmente por mais tempo.
  • Vê essa alocação como parte da estratégia de longo prazo, não como “aposta de curto prazo”.

Para quem não é

Não é indicada para quem:

  • Pode precisar do dinheiro em breve;
  • Fica muito desconfortável com oscilações de preço;
  • Busca apenas aplicações totalmente estáveis no curtíssimo prazo.

Em termos diretos:

O recurso destinado a essa estratégia deve ser apenas aquele que o investidor não pretende usar no prazo mínimo de um ano, e que faz parte da parcela de longo prazo da carteira.

 

Por que chamamos isso de “janela rara de oportunidade”

Coloque tudo na mesma mesa:

  1. Juros futuros de longo prazo hoje na casa de 13,5% ao ano em alguns vértices – um nível muito alto.
  2. Relatório Focus mostrando:
  • IPCA convergindo para 3,5%–4,0%;
  • Selic caindo, ao longo dos anos, para 9,5%.
  1. A mecânica dos títulos IPCA longos, que se valorizam muito quando os juros futuros usados na precificação caem.

Não é comum ver:

  • juros futuros tão esticados nos prazos longos,
  • combinados com uma expectativa de normalização de inflação e juros.

Dentro desse contexto, nossos cálculos mostram que:

  • Uma mudança na taxa de juros futuros de 13,5% para 11% pode gerar uma valorização em torno de +72% no preço de um título IPCA 2050,
  • além da correção pela inflação + juros reais que o papel já oferece.

Por isso dizemos que:

Estamos diante de uma janela rara de oportunidade para quem quer usar os juros futuros altíssimos de hoje como ponto de partida para multiplicar o patrimônio no longo prazo.

Não se trata de “adivinhar o futuro”, e sim de:

  • ler o que o mercado está projetando (via Focus e curva de juros),
  • entender como funcionam os títulos IPCA longos,
  • e aproveitar o momento em que os juros futuros estão exagerados, antes que o mercado ajuste essas expectativas.

Em vez de apenas se refugiar nos juros altos, a ideia é clara:

Travá‑los hoje, enquanto estão elevados, e capturar o potencial de valorização quando os juros futuros convergirem para níveis mais baixos.

 

É hora de entrar em AÇÃO!

 

Rocpáurio Santos é Analista CNPI-T Apimec, Assesor de investimentos Ancord e Diretor Executivo da Frades Investimentos. Escreve semanalmente uma coluna de análise no porta Investing.com

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